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Blog Beselho
segunda-feira, agosto 28, 2006
 
Buenas!

Aqui, quem vos escreve excepcionalmente é Paulo, mais um admirador da banda Los Beselhos.
No último post deste blog, eu, nos comentários reclamei da falta de atualização nesta agradável publicação on line. Eis que foi dado o login para atualização do blog em resposta a minha reclamação.
Assim sendo, resolvi atualizar de uma vez por todos este blog.

Claro que não é uma atualização como esperávamos, com novidades sobre a banda, a evolução das gravações do tão esperado disco de estréia dos Beselhos, praticamente um Chinese Democracy tupiniquim.
Para não despertar a ira nem indignação dos leitores assíduos deste blog, não falarei sobre música aqui. Prefiro não correr este risco.

Relembrando os bons tempos do inesquecível Quase Isso, colocarei uma pequena historinha aqui pra vocês lerem enquanto todos nós aguardamos notícias frescas sobre nossos amigos beselhos.

O DIABO VESTE AMARELO

Que corzinha mais detestável! Amarelo! Sempre odiei esta cor. Não gosto de nada que seja amarelo. O sol, a gema do ovo, a banana...
Mas meu destino quis assim. Quis que minha vida fosse praticamente pintada de amarelo.

Meu sonho sempre foi tocar contra-baixo. Mas não ser um baixista qualquer. Queria ser um baixista bom pra caralho! Ser como meu ídolo Paul McCartney! Procurei o melhor professor que pudesse encontrar.
Com quinze anos de idade comecei a ter aulas com Abraham Collin Owen. Um senhor de setenta e oito anos norte-americano. Exímio baixista de jazz, nos Estados Unidos havia tocado na big band de Duke Ellington e com nomes como Ella Fitzgerald e John Coltrane.
Abe, como é chamado, veio para o Brasil já velho estudar música brasileira após ver em Miami um grupo brasileiro de samba e se encantou com o violão de sete cordas. Desde então se mudou para cá, e, como também é luthier, construiu seu próprio violão de sete cordas.
Graças à minha paixão pelo rock britânico e meus esforços nas aulas de inglês no colégio, ainda adolescente já falava inglês com certa fluência. Isso me ajudou muito a me aproximar do velho Abe.
Com quatro meses de aulas e convivência, eu já era como um pupilo de Abe. Ele me ensinava mais que técnicas de contra-baixo. Me ensinava os princípios da luthieria, madeira e tudo mais para conseguir timbres e etc.
Quando completei um ano com Abe, ele me deu um baixo que estava construindo há meses sem eu saber. No formato do velho Hofner do Paul McCartney.
Com o passar dos anos, fui aprendendo e aprendendo sobre tudo em instrumentos musicais e em especial no contra baixo.
Logo montei uma banda cover dos Beatles onde tocávamos toda a discografia da banda incluindo singles e músicas raras que não foram lançadas oficialmente. Tocávamos até canções do disco Magical Mistery Tour, para mim o disco mais fraco da banda com sua horrível capa amarela.
Dez anos se passam e eu me sentia ainda incompleto musicalmente. Resolvo que precisava escrever minhas próprias canções para assim me sentir melhor.
Assim, me desfiz da banda cover dos Beatles, que, apesar de um bom dinheiro, já não me satisfazia.
Me juntei a alguns bons amigos, montei uma banda tentávamos compor juntos, mas nada realmente bom saía. Eu tentava compor sozinho e também nada dava certo. Começo a ter sérios problemas financeiros.
Procuro então meu mentor, o velho Abe. Ele me escuta atentamente e me diz:
"Meu bom garoto. Tudo que eu sabia sobre música lhe ensinei. Você tem capacidade para construir um instrumento com um timbre inigualável, toca com perfeição, tem uma técnica apuradíssima. Mas agora você precisa de algo além disso tudo para conseguir o quer.
Escrever uma canção é das tarefas mais complicadas do mundo para muitas pessoas. Para outras é algo tão natural quanto respirar.
Uns chamam de dom, outros chamam de maldição, ainda outros chamam de sensibilidade exacerbada, criatividade...
A verdade é que não importa o quanto você saiba sobre técnica, teoria musical...se você não consegue expressar em notas musicais seus sentimentos. Talvez você consiga expressar seus sentimentos falando, escrevendo uma poesia, pintando um quadro...
O que quero dizer é que este assunto não deveria aborrecê-lo. Você já é bom o suficiente. Seja feliz assim como você é. É um risco desejar coisas que estão além da racionalidade."

Mas o senhor precisa me ajudar! A música é a única coisa que realmente me importa; É a única forma que eu vejo de me manter vivo. Será minha última lição! Aprender a compor minhas próprias canções!
"Só há uma maneira, garoto.
Uma velha lenda de onde eu venho, o grande vale do Kentucky.
Qualquer um que quisesse aprender qualquer coisa relacionada à música que estivesse além de sua capacidade, poderia ir até uma encruzilhada á meia noite de uma noite chuvosa e negociar com o próprio demônio.
Muitos o fizeram, conseguiram o que queriam, mas pagaram um preço alto."

Como Robert Johnson, a lenda do blues do Mississipi.
"Exato!
É como eu lhe disse. Conseguir escrever canções pode ser um dom ou a pior das maldições."


Pra mim foi o suficiente. Com o resto do dinheiro que me sobrava, fiz minhas malas e me mandei para o estado de Kentucky, nos Estados Unidos.
Lá chegando, me informei sobre o vale e as lendas dos músicos de blues e suas histórias. Assim, achei o caminho que deveria seguir.
Um caminho de várias estradas que se entrecortavam ligando várias fazendas abandonadas
Assim começou minha viagem de verdade.
Peguei carona com um caipira esquisito numa caminhonete. Uma caminhonete amarela velha, toda amassada.
O caipira se chamava Joseph e era fã de Elvis Presley. Só falava em Elvis. Ele começou...
"Você sabia que Elvis era vidrado em tae kwon do? É verdade, cara! Até o fim da vida ele praticava essa arte marcial. Mesmo tomando tantos remédios, ele treinava regularmente!
Seu último projeto era um filme em que tocaria suas canções, mas teria um roteiro baseado em uma competição de tae kwon do, Elvis seria o mentor da coisa toda. No fim do filme mostrariam Elvis com o pôr-do-sol ao fundo num penhasco, depois abriria-se o ângulo e embaixo uma multidão, todas as raças e crenças...representando o mundo todo chutando o ar com o rei!
Lindo, não?"

Achei até emocionante a história, sem saber se era verdade ou não. No meio da história, notei que ali tinha uns restos de cogumelo...Meu deus...o cara tava doidão dirigindo numa neblina desgraçada e falando sobre Elvis Presley!
Ele corta o breve silêncio novamente.
"Então você vai barganhar com o Coisa-Ruim..."
Como você sabe?
"Está aí com um instrumento musical, vindo prumas bandas dessas de noite...só pode ser isso!
Você sabia que Robert Johnson morreu no mesmo dia do aniversário de Elvis? Estranho, né? Duas lendas conectadas por uma data...
Como você acha que a morte se parece? Um gato negro, a velha imagem do capuz com a foice...?
Ah, desculpa a indelicadeza...quer um cogumelo? Ajuda a relaxar..."

A adrenalina era tanta...misturada com uma angústia...peguei um pedaço, mastigeui e engoli!
Alguns minutos e as histórias de Elvis me pareciam mágicas, tão reais quanto as notícias no jornal. Imaginava Elvis...aquele Elvis de olhar sedutor, aquele topete moldado à mão por Deus em pessoa...Imaginava Elvis chutando o ar com destreza e fazendo gestos rápidos como golpes de kung fu feitos por Bruce Lee. Praticamente enxergava Elvis na minha frente cantando Fever ou Heartbreaker Hotel com jeitão de mal, todo de preto...
E o caipira diz.
"Pode descer aqui, é fim da linha pra você."
Elvis sumiu da minha mente. Eu via agora só escuridão. Por efeito do cogumelo, algumas gotas da fina chuva que caía me pareciam alfinetes que caíam do céu e me furavam a pele. Um calafrio percorreu minha espinha.
Fiquei ali esperando pelo diabo. Imaginando como ele apareceria. Um velho negro de cabelos brancos e voz grave, um lobo de olhar brilhante...
De repente escuto uma voz quase sussurrando.
"Eu já compus várias canções. De todos os gêneros que você possa imaginar. Desde de chorosos blues até animadas salsas e rumbas! Compor não é para qualquer um, meu jovem. Portanto, desapareça daqui enquando pode e viva o resto de sua vida como pode."
Eu estava confuso. Não sabia se era efeito do cogumelo ou se estava diante do próprio cramunhão, ou pelo menos da voz dele.
Me mantive ali, de pé, estático.
Alguns segundos que me pareceram uma eternidade em silêncio e sinto um dedo me cutucar suavemente as costas.
Me viro e um senhor bem penteado segurando um lampião aceso me sorria misteriosamente. Ele trajava um terno amarelo como ouro. Me estendeu a mão dizendo:
"Então, vamos aos negócios!
Quer dizer que o senhor quer ser um compositor, não é? Pelo que sei, o senhor admira muito compositores de música pop e do chamado rock n' roll como Paul McCartney e Bob Dylan."

Gaguejando respondo alguma coisa. Sempre sorrindo, o diabo me diz:
"Ótimo! Tenho uma proposta e tanto para o senhor!
Uma sensibilidade e criatividade comparáveis à de McCartney por exemplo se encaixa bem em sua personalidade. Com um estalar de dedos faço do senhor o maior compositor da música pop da atualidade!"

E eu lhe dou o que em troca?
Não sei se era o efeito do cogumelo aquilo tudo, ou se ele distorcia alguma coisa...de repente, como num desenho animado ele disse:
"Deixe me ver..."
Nisso aparece uma mesa, ele coloca aquelas viseirinhas de contador uma calculadora enorme saindo papel...e ele:
"Hum...mais isso...noves fora...escorrega sete sobe cinco..."
E vai batendo a calculadora, soltando rolos de papel...e repentinamente tudo some e ele com sua forma normal, seu terno amarelo impecável e o sorriso no rosto me diz:
"O senhor há de concordar comigo que não preciso de dinheiro. Me interesso por coisas mais profundas.
E saiba que não pedirei sua alma como o senhor imagina. Já comprei muitas almas, me cansei dessa história de almas...Mudei de ramo!
Agora compro sentimentos!
Claro, não tiro tudo de uma vez, mas vou tirando de pouco em pouco a medida que vou precisando.
Como o senhor é novo aqui e noto que não é ignorante como o povo daqui, negros e caipiras idiotas, vou lhe fazer uma oferta irresistível!
Você deixa à minha disposição sua paz de espírito e seu sentimento de satisfação e eu lhe dou o poder de compor canções soberbas! E olha que isso é uma pechincha. Além disso costumo pedir o amor próprio e a serenidade!"

Minha cabeça é uma confusão só! Um turbilhão!
Afinal de contas o que são sentimentos que de vez enquando não terei, quando estarei feliz e contente sendo um compositor como sempre sonhei? Mas não sei distinguir o que é real o que é alucinação...e esse terno amarelo horrível!?!?! Meu Deus! Não podia o diabo se vestir como tal...de vermelho e segurando um tridente?
Um turbilhão em minha cabeça!
SIM!
Eu gritei sim!
"Fez uma ótima escolha, senhor! Aqui está."
E me entregou um contra baixo amarelo. O formato era bonito, admito, mas...amarelo?
"Não se esqueça, meu caro. Eu sou o diabo! Também conhecido por ter um humor negro quase tão extremo como o de Deus.
Você só conseguirá compor suas canções neste contra-baixo ou em qualquer outro instrumento amarelo!"

Não pude esconder um pouco de decepção, mas peguei o contra baixo amarelo e fui embora.
De volta ao Brasil, pluguei o tal baixo amarelo e comecei a tocar.
Foi mágico.
Comecei a tocar uma melodia...quando vi era uma canção inteira se formando. Gravei toda a melodia! Era perfeita! Só faltava a letra. Começavam a vir palavras, formando frases...corri para anotar e algo aconteceu. Eu larguei o baixo e foi como se eu tivesse desconectado do que quer que fosse que me trazia as idéias.
Vi em cima da mesa uma caneta dessas que a gente ganha de brinde...era do Banco do Brasil e era amarela! Foi eu pegá-la e as idéias começaram a voltar! Capeta filho da puta! Eu tinha que estar sempre em contato com algo amarelo pra conseguir compor! Mas estava feliz! Compondo canções!. Reuni a banda...os caras se impressionavam com a qualidade das canções...fazíamos os arranjos e tudo mais...
Não demorou pra banda decolar e cair num circuito de shows pela região...depois pelo estado...logo estávamos com uma música emplacada em rádios alternativas internet afora...assinamos um contrato para seis discos.
Gravamos o primeiro em duas semanas! Ficou lindo!
E tudo cada vez mais insuportavelmente amarelo. Capa do disco amarela, amplificador amarelo, instrumento amarelo...Mas a cada dia mais aumentava meu prestígio, minha conta bancária...e as loiras em minha cama!
Eu estava completo!
Ou quase. De vez enquando eu não sossegava por nada. Ficava agoniado, puto...aí adivinha só...
É, amigo...entrei na dança de um baseadinho aqui...outro acolá...Bebendo feito um cabrito desmamado!
Eu já não vivia em sã consciência! Gritava pelos cantos gargalhando...Foda-se!Quem precisa de paz de espírito! E logo já tinha uma loirinha pra me fazer um boquete!
Quer saber a verdade mesmo, pra encurtar a história?
Eu morri!
Morri agradecido ao tal diabo!
Sabe o verdadeiro sentido dessa porra de rock n' roll? Diversão até o talo, querer tudo sem pensar num amanhã! Porra! Amanhã? É a mesma coisa de antes de beber pensar na ressaca!
Foda-se o amanhã, amigos!
Claro que eu estrapolei na vida. Tinha mais que o necessário e abusava disso. Fazendo turnês, chegava no quarto de hotel e jogava tinta amarela por todo o lado! Quebrava todo o apartamento...Mas apesar de toda a loucura, meus shows sempre foram memoráveis. O tal do diabo soube cuidar bem disso...da música, por mais louco que eu estivesse, sempre os shows eram arrasadores!
Agora, morto, eu acalmei, claro.
O quê? O inferno? Claro que não! Não fui para o inferno! Essa conversa de inferno não existe. O próprio diabo me contou. É papo furado pra enganar trouxa.
Não vou falar sobre a morte porque primeiro não cabe a mim e segundo porque é necessário passar por muita coisa ainda e descobrir cada um sozinho o que representa sua morte.
Só posso dizer a vocês que agora que acalmei, voltei a odiar amarelo e só tenho ouvido discos antigos de blues.
Mas sinto saudade do bom e velho rock n' roll.
Aproveitem, amigos. Para que sintam saudade e não remorso e arrependimento de não ter vivido tanto quanto poderiam.

Fim.


Obs: Eu não sei como colocar o linkzinho pros comentários nesse troço! Inté tentei fuçar, mas achei, para o bem estar e segurança desta publicação não ficar fuçando muito e acabar estragando alguma coisa.
Obrigado.

Aqui é o Daniel agradecendo o bom hacker Paulo e colocando o tal linkzinho pros comentários:

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